{"id":760,"date":"2020-04-11T17:17:00","date_gmt":"2020-04-11T20:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/slz612.com.br\/?p=760"},"modified":"2020-04-11T17:24:45","modified_gmt":"2020-04-11T20:24:45","slug":"duas-senhoras-o-jornalismo-a-pandemia-e-as-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/slz612.com.br\/index.php\/2020\/04\/11\/duas-senhoras-o-jornalismo-a-pandemia-e-as-fake-news\/","title":{"rendered":"Duas senhoras, o Jornalismo, a pandemia e as fake news"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-761\" src=\"https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/fofoca.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/fofoca.png 620w, https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/fofoca-300x150.png 300w, https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/fofoca-500x250.png 500w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><strong>* Por Greg\u00f3rio Dantas<\/strong>\u00a0<\/span><\/p>\n<p>A pandemia do novo coronavirus (Covid-19) imp\u00f4s \u00e0 sociedade, como conhecemos, uma mudan\u00e7a radical de comportamento. Involuntariamente ou n\u00e3o, modificamos nossa maneira de perceber as rela\u00e7\u00f5es sociais e despertamos novas alternativas. Recentemente, eu estava deitado na rede da varanda do meu apartamento, assistindo a um filme com minha esposa, quando escutei um di\u00e1logo intrigante que me fez pensativo e muito preocupado.<\/p>\n<p>Eram duas senhoras entre 50 e 60 anos conversando no apartamento do t\u00e9rreo. Elas estavam criticando minha categoria de jornalista e vociferavam que \u201cassistiam a tv e viam os jornalistas pedindo para ficar em casa, entretanto eles (jornalistas) estavam fora de casa\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me veio a seguinte pondera\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 que elas estavam se solidarizando pelo fato de n\u00f3s, jornalistas, termos que arriscar nossas vidas e as de nossas fam\u00edlias para levar a informa\u00e7\u00e3o de forma s\u00e9ria e respons\u00e1vel para a popula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Para minha decep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era nada disso. Continuei escutando a conversa e ficou evidente que elas estavam zombando do trabalho da nossa categoria. Elas sorriam e debochavam das informa\u00e7\u00f5es que, com tanto zelo e responsabilidade, passamos para popula\u00e7\u00e3o. Orienta\u00e7\u00f5es que temos como fontes profissionais de sa\u00fade, infectologistas, bi\u00f3logos, cientistas.<\/p>\n<p>O tom do di\u00e1logo demonstrava uma verdadeira desvaloriza\u00e7\u00e3o do nosso trabalho e da profiss\u00e3o de jornalista.<\/p>\n<p>Elas falavam: \u201ccomo vamos continuar em casa se eles que tanto pedem est\u00e3o na rua de boa\u201d, \u201ceu n\u00e3o acredito no que esses jornalistas est\u00e3o falando, nem no que esses m\u00e9dicos e doutores que eles entrevistam falam\u201d, \u201cisso a\u00ed \u00e9 s\u00f3 besteira que inventaram pro povo ficar em casa e quebrar a economia\u201d, \u201cessa doen\u00e7a s\u00f3 matou 21 pessoas no Maranh\u00e3o, n\u00e3o sei porque esse alarme todo\u201d, \u201cn\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que pegou isso\u201d, \u201ceu vi no \u2018zap\u2019 que isso foi uma inven\u00e7\u00e3o da China\u201d, \u201ceu vi em um canal do YouTube que essa doen\u00e7a \u00e9 uma estrat\u00e9gia pra fazer a china dominar o mundo\u201d, \u201cvi em uma corrente de Facebook que n\u00f3s temos que ir pra rua mesmo pra todo mundo pegar logo isso e ficar imune\u201d.<\/p>\n<p>Essas frases me fizeram refletir sobre a fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do trabalho de jornalista. Ser\u00e1 que estamos conseguindo cumprir bem nosso trabalho? Ser\u00e1 que estamos conseguindo levar a informa\u00e7\u00e3o de forma correta para quem mais precisa? Ser\u00e1 que realmente estamos conseguindo contribuir com a sociedade e com os profissionais de sa\u00fade que tanto sofrem tratando as v\u00edtimas dessa doen\u00e7a? E a pior e mais do\u00edda de todas as quest\u00f5es: \u201cSer\u00e1 que nossa dedica\u00e7\u00e3o, seriedade e responsabilidade valem a pena?<\/p>\n<p>Para abordar o tema, fico com a defini\u00e7\u00e3o de jornalismo do professor e comunicologo Nilson Lage: \u201cO jornalismo \u00e9 uma pr\u00e1tica social que se distingue das outras pelo compromisso \u00e9tico peculiar e pela dupla representa\u00e7\u00e3o social: jornalistas podem ser vistos, de maneira ampla, como intermedi\u00e1rios no tr\u00e1fego social da informa\u00e7\u00e3o ou, de maneira estrita, como agentes a servi\u00e7o de causas consideradas nobres.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o dessa duplicidade \u00e9 hist\u00f3rica e suas consequ\u00eancias ganham relev\u00e2ncia numa \u00e9poca em que as narrativas impostas se sobrep\u00f5em e determinam os fatos\u201d.<br \/>\nAs quest\u00f5es levantadas pelas senhoras, ap\u00f3s essa contextualiza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, verdadeiramente despertam uma afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em tempos de uma sociedade interligada digitalmente pelas redes sociais e pelo maior perigo delas, que \u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o pelas fakenews, chego at\u00e9 a pensar que o professor Umberto Eco, que estudamos nas aulas de Teoria da Comunica\u00e7\u00e3o, estava correto quando afirmava que as redes sociais d\u00e3o o direito \u00e0 palavra a uma \u201clegi\u00e3o de imbecis, que antes falavam apenas em um bar e depois de uma ta\u00e7a de vinho, sem prejudicar a coletividade\u201d\u2026<\/p>\n<p>Pior ainda \u00e9 pensar que Eco estava correto quando afirmou que \u201co drama da internet \u00e9 que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade\u201d. Ideia que eu tanto combatia na sala de aula da Universidade e que hoje me parece cada vez mais real.<br \/>\nEnquanto aluno, imaturo, eu pensava e fantasiava os benef\u00edcios e as conquistas da era digital e da internet. Ainda acredito nisso, mas de forma diferente.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso, de forma alguma, desprezar o que venho chamando de \u201cauto aliena\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e intencional\u201d. Essa pr\u00e1tica, que acredito ser a das duas senhoras, \u00e9 comum nos que se alimentam das fakenews e as alimentam em um eterno e cruel processo simbi\u00f3tico de retroalimenta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os que aderem ingenuamente a uma verdade inexistente, por cren\u00e7a ou identifica\u00e7\u00e3o, encontrando no falso aquilo que pensa e acreditando como verdadeiro. Eles aceitam o falso como evid\u00eancia materializada de sua ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Verdairamente, n\u00e3o acredito que as duas senhoras se enquadrem na outra vertente: os que se alimentam e alimentam as fakenews. Ainda tenho esperan\u00e7as que elas n\u00e3o sejam os que sabem das falsifica\u00e7\u00f5es e n\u00e3o se importam, por considera-las \u00fateis aos seus fins ideol\u00f3gicos. Tomara que esse n\u00e3o seja o caso.<\/p>\n<p>Elas seriam sim o primeiro caso. Acreditando que elas sejam as ing\u00eanuas que repetem a pr\u00e1tica do que chamei de auto aliena\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e intencional. Elas quase que automaticamentes e instintamente pegam o smartphone, acessam qualquer rede social, sem refer\u00eancia alguma, sem embasamento cientifico algum, no mais puro e simples achismo, ent\u00e3o escolhem acreditar naquilo como verdade absoluta e compartilham para todos seus contatos.<\/p>\n<p>\u00c9 triste perceber que essa pr\u00e1tica se transformou em quase uma regra. Mais triste, ainda, \u00e9 ver pessoas pr\u00f3ximas a n\u00f3s, jornalistas, se utilizando dessa mesma pr\u00e1tica autoalienativa e compartilhando sem crit\u00e9rio algum essas fakenews nojentas e perigosas que colocam em risco a vida dos profissionais de sa\u00fade, da pr\u00f3pria fam\u00edlia e de toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que as falsas informa\u00e7\u00f5es podem ser refutadas, entretanto, seguindo a m\u00e1xima de outro te\u00f3rico que deveria ser mais lido nessa \u00e9poca, Jean Baudrillard, o falso pavimenta o caminho do verdadeiro e pelo \u201cparoxismo do absurdo seria o bom uso social do falso uma irrealidade cotidiana fazendo eco\u201d.<\/p>\n<p>Espero que essa afli\u00e7\u00e3o que sinto quanto a fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do trabalho de jornalista seja uma coisa passageira. Espero que nossa sociedade supere o quanto antes essa fase de negacionismo hist\u00f3rico e cient\u00edfico, de ataque violento a pesquisa, a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o. De acordo com o professor titular de hist\u00f3ria do Brasil da USP, Marcos Napolitano, \u201cn\u00e3o se pode negar o conhecimento, a ci\u00eancia e os fatos hist\u00f3ricos\u201d. Do contr\u00e1rio, a conta vai chegar e vai ser muito cara.<\/p>\n<p>O professor Napolitano tamb\u00e9m alimenta o cora\u00e7\u00e3o de jornalistas e historiadores quando afirma que um m\u00e9todo eficaz de combater o perigo do negacionismo \u00e9 justamente a utiliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria p\u00fablica e da comunica\u00e7\u00e3o direta por meio das mesmas redes sociais.<\/p>\n<p>Durante muito tempo a produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica e te\u00f3rica jornal\u00edstica ficou \u201cpresa\u201d ao mundo acad\u00eamico, em artigos extensos que s\u00f3 dialogam com professores e alunos. Napolitano cr\u00ea que a sa\u00edda e a forma mais adequada para o combate ao negacionismo cient\u00edfico e hist\u00f3rico seria a produ\u00e7\u00e3o de qualidade t\u00e9cnica e est\u00e9tica no YouTube, Instagram ou Facebook. As mesmas ferramentas t\u00e3o utilizadas pelos negacionistas.<\/p>\n<p>Tendo em vista as pontua\u00e7\u00f5es e as abordagens te\u00f3ricas apresentadas, podemos concluir e acreditar que n\u00e3o devemos \u201cdesisitir\u201d do jornalismo, da pesquisa, da educa\u00e7\u00e3o e da ci\u00eancia apesar do constante e pesado ataque a essas \u00e1reas. Podemos atacar as fakenews, a desinforma\u00e7\u00e3o e a aliena\u00e7\u00e3o com mudan\u00e7as no m\u00e9todo de abordagem, melhorias est\u00e9ticas e de produ\u00e7\u00e3o na forma do produto.<\/p>\n<p>Devemos utilizar justamente o caminho que as duas senhoras do come\u00e7o do texto utilizaram: as redes sociais.<\/p>\n<p>Parafraseando o experiente jornalista e radialista maranhense, Juraci Vieira Filho, \u201cas redes sociais quando bem utilizadas podem ser ferramentas maravilhosas de transforma\u00e7\u00e3o social\u201d. Quando bem utilizadas!<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 8pt;\">*Graduado em Comunica\u00e7\u00e3o Social com habilita\u00e7\u00e3o em jornalismo pela UFMA, p\u00f3s graduado em assessoria de comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Est\u00e1cio S\u00e3o Lu\u00eds e graduando em Hist\u00f3ria (UFMA)<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Por Greg\u00f3rio Dantas\u00a0 A pandemia do novo coronavirus (Covid-19) imp\u00f4s \u00e0 sociedade, como conhecemos, uma mudan\u00e7a radical de comportamento. Involuntariamente ou n\u00e3o, modificamos nossa maneira de perceber as rela\u00e7\u00f5es sociais e despertamos novas alternativas. 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