{"id":1404,"date":"2020-10-02T10:56:26","date_gmt":"2020-10-02T13:56:26","guid":{"rendered":"https:\/\/slz612.com.br\/?p=1404"},"modified":"2020-10-02T10:57:52","modified_gmt":"2020-10-02T13:57:52","slug":"os-quixotes-libelus-arejaram-a-politica-estudantil-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/slz612.com.br\/index.php\/2020\/10\/02\/os-quixotes-libelus-arejaram-a-politica-estudantil-no-brasil\/","title":{"rendered":"Os quixotes libelus arejaram a pol\u00edtica estudantil no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1405\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1405\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1405\" src=\"https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/didatura.png\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"648\" srcset=\"https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/didatura.png 1200w, https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/didatura-300x162.png 300w, https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/didatura-1024x553.png 1024w, https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/didatura-768x415.png 768w, https:\/\/slz612.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/didatura-500x270.png 500w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><p id=\"caption-attachment-1405\" class=\"wp-caption-text\">As bandeiras de luta da juventude nos anos de chumbo no Brasil<\/p><\/div>\n<h1>POR \u00c1LVARO CALDAS<\/h1>\n<p class=\"has-text-color\">Sob a dire\u00e7\u00e3o de Ot\u00e1vio Frias Filho, a reda\u00e7\u00e3o da\u00a0Folha\u00a0se transformou num castelo de ex-libelus. Para l\u00e1 foram Caio T\u00falio Costa, Matinas Suzuki, Laura Capriglione, Mario S\u00e9rgio Conti, Josimar Melo. Eu estava na chefia de reda\u00e7\u00e3o da sucursal do Rio e me lembro de que diariamente falava com um libelu na sede. Eles estavam em todas as editorias<\/p>\n<p>Liberdade e Luta continua sendo uma palavra de ordem atual. Os estudantes filiados \u00e0 Libelu bradavam \u201cabaixo a ditadura\u201d em suas manifesta\u00e7\u00f5es, criticavam a caretice e o regime de partido \u00fanico dos pa\u00edses comunistas do Leste Europeu. Denunciaram a invas\u00e3o da Tchecoslov\u00e1quia pelos tanques russos. Eram cr\u00edticos dos comunistas tradicionais ditos reformistas e dos que foram \u00e0 luta armada. Gostavam de bandas de rock e dos Rolling Stones, n\u00e3o gostavam da censura e do Dops e animavam suas festinhas com o uso tolerado de maconha.<\/p>\n<p>Poucos, mas ruidosos, deixaram sua marca num momento de refluxo no in\u00edcio do processo de abertura pol\u00edtica. Foram os modernistas de 1922 em outro momento e num novo figurino. Vieram em sua maioria da ECA e da Faculdade de Filosofia da USP. Seduzidos pelas ideias e a trajet\u00f3ria do profeta banido Leon Trotsky, formaram uma corrente ligada \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Socialista Internacionalista, a OSI, que editava o jornal\u00a0<em>O Trabalho<\/em>. Este surto de rebeldia e efervesc\u00eancia pol\u00edtica e cultural pode ser visto no document\u00e1rio\u00a0<em>Libelu \u2012 Abaixo a ditadura,<\/em>\u00a0um dos 10 longas brasileiros da mostra competitiva do festival\u00a0<em>\u00c9 tudo Verdade<\/em>.<\/p>\n<p>Menos de 10 anos depois do apogeu do movimento estudantil com a passeata dos 100 mil, em 68, os estudantes reaparecem na cena pol\u00edtica na segunda metade dos anos 70. Surgem com uma cara nova, bolsas penduradas nos ombros, costumes e ideais antag\u00f4nicos aos da gera\u00e7\u00e3o que os antecedeu. Jovens de classe m\u00e9dia, brancos, s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o escolar, cultos, os chamados pequenos burgueses da pe\u00e7a de Gorki, execrados no jarg\u00e3o marxista tradicional. N\u00e3o tinham a ambi\u00e7\u00e3o de poder, um projeto revolucion\u00e1rio, como apregoavam os jovens que enfrentaram a ditadura na d\u00e9cada anterior.<\/p>\n<p>Nada de culto \u00e0 personalidade, de Marx, L\u00eanin, Mao, Fidel ou Che. Liam os existencialistas Breton, Sartre e Simone. O pessoal da Escola de Frankfurt, Adorno e Benjamin. Barthes, Foucault, Cort\u00e1zar e Murilo Mendes, entre outros. Uma outra vis\u00e3o e sentimento do mundo. Que tamb\u00e9m est\u00e1 a anos luz de dist\u00e2ncia dos jovens de esquerda de hoje, estreantes na pol\u00edtica nestas elei\u00e7\u00f5es. Nascidos no s\u00e9culo 21, integrantes da chamada gera\u00e7\u00e3o Z, abandonaram os livros, vivem a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e cibern\u00e9tica, uma simbiose de m\u00e1quinas e seres vivos, e trazem na mente os ecos da convuls\u00e3o que agitou o pa\u00eds em 2013.<\/p>\n<p>Rejeitam pol\u00edticos e partidos tradicionais, querem fazer algo diferente sem saber o qu\u00ea. N\u00e3o est\u00e3o vinculados a organiza\u00e7\u00f5es, exce\u00e7\u00e3o daquele percentual m\u00ednimo ligado aos partidos comunistas. Todas as discuss\u00f5es coletivas s\u00e3o feitas em lives, o que a pandemia consagrou. Os que se disp\u00f5em a uma participa\u00e7\u00e3o direta na pol\u00edtica possuem liga\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias familiares, s\u00e3o filhos ou netos de ex-militantes. Orientam-se pelos programas e debates nas redes e trocam mensagens o tempo todo pelo Tik Tok e Instagram. Movimento estudantil \u00e9 coisa do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>O jornalista e cineasta estreante Di\u00f3genes Muniz, 34 anos, que dirigiu o document\u00e1rio, nasceu e cresceu na democracia. Ele e toda a sua equipe. Di\u00f3genes ouviu falar em Libelu pela primeira vez quando leu um poema de Leminski dedicado ao grupo, no qual o poeta se refere aos trotskistas \u201ccomo aqueles que o poder n\u00e3o corrompeu\u201d. Nessa \u00e9poca, ele come\u00e7ou a diferenciar essa gera\u00e7\u00e3o, mais ligada \u00e0 contracultura e \u00e0 transgress\u00e3o dos costumes, daquela da luta armada.<\/p>\n<p>A Libelu seduziu centenas de jovens, muitos personagens conhecidos do p\u00fablico atualmente. A corrente teve papel importante na reconstru\u00e7\u00e3o das entidades estudantis UNE e UBES, fechadas pela repress\u00e3o. E ganhou proje\u00e7\u00e3o ao retomar e propagar a palavra ordem do \u201cabaixo a ditadura\u201d, que andava esquecida.\u00a0 O document\u00e1rio entrevistou v\u00e1rios deles. Era predominante a presen\u00e7a de jornalistas, vindos da ECA, atra\u00eddos em massa para a\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0em sua fase de renova\u00e7\u00e3o, in\u00edcio da d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p>Sob a dire\u00e7\u00e3o de Ot\u00e1vio Frias Filho, a reda\u00e7\u00e3o se transformou num castelo de ex-libelus. Para l\u00e1 foram Caio T\u00falio Costa, Matinas Suzuki, Laura Capriglione, Mario S\u00e9rgio Conti, Josimar Melo. Eu estava na chefia de reda\u00e7\u00e3o da sucursal do Rio e me lembro de que diariamente falava com um libelu na sede. Eles estavam em todas as editorias. No Rio t\u00ednhamos trotskistas discretos na reda\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o libelulistas. De onde se pode concluir que esse fen\u00f4meno foi t\u00edpico da pauliceia. Tamb\u00e9m ajustam contas com seu passado rebelde no doc o economista Eduardo Giannetti, os jornalistas Dem\u00e9trio Magnoli, Paulo Moreira Leite e o ex-ministro Ant\u00f4nio Palocci.<\/p>\n<p>O movimento estudantil de 68 formou um grupo privilegiado de jovens atra\u00eddos para as organiza\u00e7\u00f5es de luta armada. Em certo momento, fechadas as portas e possibilidades de uma atua\u00e7\u00e3o legal, o embate contra as for\u00e7as da ditadura passou a ser direto, de armas na m\u00e3o. O vento forte da revolu\u00e7\u00e3o social passou arrastando a todos, como se fosse um vendaval. Cristalizou-se a vol\u00fapia da certeza, a sensa\u00e7\u00e3o de que \u201co apocalipse quer tudo, e tudo imediatamente\u201d, como narra um personagem de Andr\u00e9 Malraux em seu di\u00e1rio sobre a guerra civil espanhola.<\/p>\n<p>Imbu\u00edda dessa certeza, a carioca Ana Maria Nacinovic foi assassinada aos 25 anos, em junho de 1972, numa emboscada armada por uma mil\u00edcia doicodiana em S\u00e3o Paulo. Ana Maria era da ALN, treinada no manuseio de armas, vivia clandestina e, segundo o testemunho dos que a conheceram \u2012 pe\u00e7o licen\u00e7a para encadear adjetivos \u2012, era bel\u00edssima, inteligente, sens\u00edvel e corajosa. Tinha olhos azuis esvoa\u00e7antes. Estudou no Col\u00e9gio de freiras S\u00e3o Paulo, em Ipanema. Desde cedo aprendeu piano com o professor Guilherme Mignone e cursou a Faculdade de Belas Artes.<\/p>\n<p>Outro jovem com forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural, amante do cinema, culto e sedutor da gera\u00e7\u00e3o meia oito foi o l\u00edder estudantil Marcos Medeiros. Fez Sociologia na Faculdade Nacional de Filosofia, militou no PCBR. Nas passeatas pelas ruas do Centro do Rio, discursava em cima de caixotes ou trepado nos postes. Marcos escapou para o ex\u00edlio. Passou por Havana e Paris. Trabalhou com o documentarista Chris Maker e foi colaborador e ator de Glauber Rocha.\u00a0Aderiu \u00e0 contracultura e entrou no mundo das drogas. Na volta do ex\u00edlio, caiu em depress\u00e3o, morreu aos 56 anos. Parte de sua vida est\u00e1 no document\u00e1rio\u00a0<em>Marcos Medeiros: codinome vampiro,<\/em>\u00a0de Vicente Duque Estrada. N\u00e3o est\u00e1 programado no \u201c<em>\u00c9 tudo Verdade<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Mat\u00e9ria original no <a href=\"http:\/\/www.ultrajano.com.br\/os-quixotes-libelus-arejaram-a-politica-estudantil\/\">Ultrajano.com.br, clique aqui e veja<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR \u00c1LVARO CALDAS Sob a dire\u00e7\u00e3o de Ot\u00e1vio Frias Filho, a reda\u00e7\u00e3o da\u00a0Folha\u00a0se transformou num castelo de ex-libelus. Para l\u00e1 foram Caio T\u00falio Costa, Matinas Suzuki, Laura Capriglione, Mario S\u00e9rgio Conti, Josimar Melo. 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